A automedicação é um hábito perigoso para os seres humanos, mas quando transposta para a medicina veterinária, torna-se frequentemente fatal. É comum recebermos na clínica animais em estado crítico após o tutor tentar “baixar a febre” ou “aliviar a dor” usando o que tinha na caixa de remédios de casa. O desconhecimento sobre os medicamentos humanos proibidos para cães e gatos é uma das principais causas de intoxicações iatrogênicas graves.
Embora alguns fármacos da medicina humana sejam utilizados em animais, as doses, a frequência e, principalmente, a capacidade metabólica das espécies são drasticamente diferentes. O que cura um humano de 70kg pode causar falência hepática fulminante num cão de 10kg ou asfixia num gato de 4kg.
Neste artigo técnico, vamos analisar a farmacologia e a patologia por trás de 5 medicamentos humanos proibidos para cães e gatos (ou de uso restrito), explicando exatamente o que acontece no organismo do seu pet quando ele ingere essas substâncias.
A deficiência metabólica: por que eles não aguentam?
Para entender a toxicidade dos medicamentos humanos proibidos para cães e gatos, precisamos voltar à fisiologia hepática. O fígado utiliza vias enzimáticas para conjugar e excretar drogas. Os gatos, em particular, são deficientes na via da glicuronidação (falta-lhes a enzima glicuronil-transferase). Isso significa que fármacos que dependem dessa via para serem eliminados acumulam-se no corpo em níveis tóxicos, mesmo em doses pediátricas. Já os cães podem ser ultrassensíveis aos efeitos dos AINEs (anti-inflamatórios não esteroidais) na mucosa gástrica e nos rins.

1. Paracetamol (Acetaminofeno): o inimigo número 1 dos gatos
O Paracetamol é, talvez, o mais perigoso entre os medicamentos humanos proibidos para cães e gatos, especialmente para os felinos. Para um gato, um único comprimido de 500mg ou 750mg é letal.
Fisiopatologia da intoxicação
Como os gatos não conseguem glicuronidar o paracetamol eficazmente, a droga segue uma via metabólica alternativa (citocromo P450) que produz um metabolito tóxico chamado NAPQI. Este metabolito causa dois danos principais:
- Meta-hemoglobinemia: Ocorre a oxidação da hemoglobina. O ferro da hemoglobina passa do estado ferroso (Fe2+) para o férrico (Fe3+), perdendo a capacidade de transportar oxigênio.
- Sinal clínico clássico: O sangue do animal fica castanho-escuro (“cor de chocolate”), as mucosas ficam cianóticas (roxas) ou marrons (“cor de tijolo”) e o animal morre por asfixia celular.
- Necrose Hepática Centrolobular: Nos cães (e também nos gatos), o metabolito destrói os hepatócitos, levando à falência hepática aguda em 24-72 horas.

2. Ibuprofeno: destruição renal e gástrica
Muito popular nas casas brasileiras, o Ibuprofeno é um dos medicamentos humanos proibidos para cães e gatos mais ingeridos acidentalmente. Ele é um AINE não seletivo que inibe as enzimas COX-1 e COX-2.
Mecanismo da lesão
A enzima COX-1 é responsável por produzir prostaglandinas que protegem o estômago (produzindo muco) e mantêm o fluxo sanguíneo nos rins. Ao inibir a COX-1 de forma agressiva:
- No estômago: A barreira protetora desaparece. O ácido gástrico começa a digerir a parede do estômago, causando úlceras perfurantes dolorosas. O animal vomita sangue (hematêmese) ou defeca fezes negras (melena).
- Nos rins: Ocorre vasoconstrição das arteríolas renais, levando à isquemia papilar e Insuficiência Renal Aguda. O dano renal pode ser permanente, obrigando o animal a viver com doença renal crônica pelo resto da vida.
3. Diclofenaco (Cataflam/Voltaren): a bomba ulcerogênica
Se o Ibuprofeno é perigoso, o Diclofenaco é catastrófico e está no topo da lista de medicamentos humanos proibidos para cães e gatos. A margem de segurança do diclofenaco para cães é praticamente inexistente.
A potência de inibição das prostaglandinas gástricas pelo diclofenaco é tão alta que uma única dose pode causar ulceração gástrica severa em poucas horas. Além disso, o diclofenaco causa necrose tubular renal aguda rapidamente. Na necropsia de animais intoxicados por diclofenaco, é comum encontrarmos o trato gastrointestinal com múltiplas hemorragias e úlceras, além de rins pálidos e edemaciados. Não existe dose segura de diclofenaco para cães e gatos; o uso é absolutamente contraindicado.
4. Ácido Acetilsalicílico (Aspirina): o perigo da coagulação
A Aspirina já foi usada em veterinária, mas hoje é considerada um dos medicamentos humanos proibidos para cães e gatos para uso doméstico sem supervisão estrita, devido ao surgimento de drogas mais seguras.
Além de causar úlceras gástricas como os outros AINEs, a aspirina inibe a agregação plaquetária de forma irreversível por até 7-10 dias.
- O risco cirúrgico: Se o animal precisar de uma cirurgia de emergência (por exemplo, após ser atropelado) e tiver tomado aspirina, o risco de hemorragia incontrolável durante o procedimento é altíssimo.
- Acidose metabólica: Em sobredose, a aspirina causa um desequilíbrio ácido-básico grave, afetando o centro respiratório no cérebro e podendo levar ao coma.
5. Pseudoefedrina (Descongestionantes): estimulação letal
Muitos antigripais humanos contêm pseudoefedrina para “desentupir o nariz”. Para nós, funciona bem. Para eles, é um dos medicamentos humanos proibidos para cães e gatos que atua como um estimulante fortíssimo, similar à anfetamina.
A pseudoefedrina causa uma liberação massiva de catecolaminas (adrenalina).
- Sinais clínicos: O animal apresenta hiperatividade extrema, pupilas dilatadas (midríase), taquicardia severa e hipertensão.
- Consequência fatal: A pressão alta pode levar a hemorragias retinianas ou derrame cerebral, além de arritmias cardíacas fatais. Não existe antídoto específico; o tratamento visa apenas controlar os sintomas até a droga ser excretada.
Outros riscos na farmacinha de casa
A lista de medicamentos humanos proibidos para cães e gatos não para por aí. Outros itens comuns merecem menção honrosa:
- Antidepressivos (ISRS): Medicamentos como a fluoxetina humana, se ingeridos em dose alta, causam a Síndrome Serotoninérgica (tremores, rigidez muscular, convulsões).
- Benzodiazepínicos (Clonazepam/Diazepam): Em alguns cães, em vez de acalmar, causam excitação paradoxal e, em doses altas, necrose hepática grave em gatos.
- Pomadas de Corticoide/Antibiótico: Cães adoram lamber pomadas. A ingestão crônica de corticoides tópicos pode levar à Síndrome de Cushing iatrogênica ou úlceras gástricas.
O que fazer em caso de ingestão acidental?
O tempo é o fator crítico. Se você suspeita que o seu animal ingeriu qualquer um destes medicamentos humanos proibidos para cães e gatos:
- Não espere os sintomas: Quando o sangue do gato ficar marrom (paracetamol) ou o cão vomitar sangue (diclofenaco), o dano orgânico já é extenso.
- Leve a embalagem: O veterinário precisa saber a dosagem exata para calcular a dose tóxica e definir o prognóstico.
- Não induza o vómito sem orientação: Se o animal já estiver sonolento ou convulsionando, induzir o vómito pode causar pneumonia por aspiração.
O tratamento envolverá descontaminação gastrointestinal (carvão ativado), fluidoterapia agressiva para proteger os rins e, no caso do paracetamol, o uso do antídoto específico (N-acetilcisteína) para repor a glutationa hepática.
Conclusão
A fisiologia dos nossos animais é única e delicada. A melhor forma de amar o seu pet é respeitar a sua biologia e nunca assumir o papel de médico. Os medicamentos humanos proibidos para cães e gatos são ferramentas poderosas que, nas mãos erradas, transformam-se em venenos letais. Mantenha a sua farmácia trancada e, em caso de dor ou febre, procure sempre um médico veterinário. A prescrição correta salva vidas.

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