Síndrome braquicefálica em Buldogues: por que o ronco não é normal (2026)

Se você entrar em qualquer grupo de Facebook ou WhatsApp de tutores de Buldogues (sejam Franceses ou Ingleses), verá dezenas de vídeos de cães a dormir sentados, a roncar alto como um motor de barco ou a fazer barulhos estranhos ao comer. Nos comentários, chovem reações de “que fofo!” ou “o meu também faz isso!”.

Como médico veterinário, essa normalização do sofrimento preocupa-me. O que muitos chamam de “charme da raça” é, na verdade, um sinal clínico grave dificuldade respiratória. Estamos a falar da Síndrome Braquicefálica em Buldogues (ou Síndrome Obstrutiva das Vias Aéreas dos Braquicefálicos – BOAS).

Neste artigo técnico, vamos dissecar a anatomia distorcida destas raças. Vou explicar, peça por peça, o que bloqueia a passagem do ar e por que o seu cão corre risco de vida num simples passeio ao sol. O objetivo não é criticar a raça, que é amável e companheira, mas garantir que ela respire com a dignidade que merece.

A Anatomia do Colapso: O que é a Síndrome?

A síndrome braquicefálica em Buldogues não é uma doença única, mas um conjunto de deformidades anatômicas primárias e secundárias causadas pelo encurtamento excessivo do crânio. Imagine que você tem o “recheio” de um focinho de Pastor Alemão (língua, palato, cornetos nasais), mas precisa fazer tudo isso caber dentro do espaço minúsculo de um crânio de Buldogue. O resultado é um “engarrafamento” de tecidos moles que obstrui a garganta.

Na patologia, identificamos 4 componentes principais:

1. Estenose de Narinas (A porta fechada)

Esta é a alteração mais visível. As narinas do cão são estreitas, fechadas ou colapsadas. Em vez de uma abertura redonda e ampla, vemos apenas uma “fenda” minúscula. Ao inspirar, o cão precisa fazer uma força de vácuo imensa para puxar o ar. Essa pressão negativa constante acaba sugando as estruturas internas da laringe, piorando o quadro ao longo dos anos.

2. Palato Mole Alongado (A cortina na garganta)

O palato mole é a parte “molenga” no céu da boca, lá no fundo. Nos braquicefálicos, ele é comprido demais para o tamanho da boca. A ponta do palato ultrapassa a epiglote e entra na laringe, vibrando a cada respiração (o que causa o ronco). Quando o cão faz exercício ou fica excitado, esse tecido incha (edema) e pode bloquear totalmente a entrada de ar na traqueia. É a sensação de tentar respirar com um pano molhado na garganta.

3. Sáculos Laríngeos Evertidos (O efeito secundário)

Lembra-se da força de vácuo que mencionei na estenose de narinas? Com o tempo, essa pressão negativa “suga” os sáculos laríngeos (pequenas bolsas de tecido dentro da laringe) para fora. Eles invertem-se (evertem) e formam duas “bolinhas” de carne que obstruem ainda mais a passagem de ar. Isso é uma alteração secundária: quanto mais tempo o cão passar sem correção das narinas, maior a chance de desenvolver isso.

4. Hipoplasia Traqueal (O cano estreito)

Em alguns Buldogues, especialmente os Ingleses, a traqueia é geneticamente mais estreita do que deveria ser para o porte do animal. Enquanto um cão normal tem uma traqueia do diâmetro de uma mangueira de jardim, o Buldogue pode ter uma do diâmetro de um canudo grosso. Isso limita drasticamente o fluxo de ar e predispõe a pneumonias.

Sintomas que NÃO são “coisa da raça”

Todo tutor precisa saber diferenciar o normal do patológico na síndrome braquicefálica em Buldogues. Se o seu cão apresenta estes sinais, ele não está “sendo Buldogue”, ele está em crise respiratória:

  • Intolerância ao calor: Passa mal ou desmaia (síncope) em dias quentes ou após caminhar 10 minutos.
  • Engasgos frequentes: Regurgita espuma branca ou comida não digerida (muitas vezes associado a hérnia de hiato, comum na síndrome).
  • Posição de dormir: Dorme com a cabeça pendurada para fora da cama, ou dorme sentado, ou precisa colocar um brinquedo na boca para manter a garganta aberta (apneia do sono).
  • Cianose: A língua fica roxa ou azulada após esforço.

O risco da Hipertermia (Insolação)

Cães não suam; eles trocam calor ofegando (pela boca e nariz). Como o Buldogue tem as vias aéreas obstruídas, a ventilação é ineficiente. Ele ofega, ofega, mas o ar não circula o suficiente para arrefecer o sangue. Em dias acima de 25°C, a temperatura corporal sobe rapidamente para 41°C ou 42°C. Isso cozinha as proteínas do corpo, levando a edema cerebral, falência renal e morte em questão de minutos. Atenção: Um Buldogue ofegante num dia quente pode ser uma emergência potencial.

Tratamento: A Rinoplastia e a Palatoplastia

A boa notícia é que a medicina veterinária avançou muito. Hoje, a correção cirúrgica da síndrome braquicefálica em Buldogues é rotina e muda a vida do animal.

  1. Rinoplastia: Remove-se uma cunha de tecido das narinas, abrindo a passagem de ar. O alívio é imediato.
  2. Palatoplastia (Stafilectomia): Corta-se o excesso de palato mole (hoje em dia usamos laser ou bisturi harmônico para não sangrar). Isso acaba com o ronco obstrutivo e evita o engasgo.
  3. Remoção dos Sáculos: Se estiverem evertidos, são removidos cirurgicamente.

Não espere o cão ficar idoso para operar. Quanto mais jovem for feita a correção (idealmente logo após o término do crescimento), menor a chance de ele desenvolver colapso de laringe irreversível no futuro.

Conclusão

Ter um Buldogue é apaixonante, mas exige consciência. Amar o seu cão é garantir que ele consiga fazer o básico da vida: respirar. Não normalize o ronco excessivo ou os desmaios. Se o seu cão faz barulho para respirar mesmo em repouso, procure um cirurgião especializado em tecidos moles. A correção da síndrome braquicefálica em Buldogues não é estética; é uma questão de saúde, bem-estar e longevidade.


⚠️ IMPORTANTE: AVISO MÉDICO VETERINÁRIO

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Não medique o seu animal por conta própria. A automedicação pode mascarar sintomas graves ou agravar o quadro clínico. Se o seu pet apresentar qualquer alteração de comportamento, vômito, diarreia ou outros sintomas, procure imediatamente atendimento veterinário. A rapidez no socorro é, muitas vezes, o que salva vidas.

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