Introdução
A otite canina recorrente é uma cena clássica no consultório: o tutor chega exaustouma cena clássica no consultório: o tutor chega exausto, dizendo que não dormiu à noite porque o cachorro passou a madrugada inteira chacoalhando a cabeça e coçando a orelha. O diagnóstico parece óbvio: “Doutor, é otite de novo”.
Muitos tutores já tentaram de tudo. Compraram o remédio que o vizinho indicou, usaram a pomada da agropecuária, ou até receitas caseiras perigosas. O problema melhora por alguns dias, mas logo volta — e muitas vezes, volta pior.
Como médico veterinário especializado em Patologia Animal, meu objetivo hoje é mudar a forma como você enxerga a otite. Não vamos falar apenas de “dor de ouvido”. Vamos mergulhar no que acontece microscopicamente dentro do canal auditivo do seu pet e entender por que, sem investigar a causa raiz, estamos apenas enxugando gelo.
Se você quer resolver o problema de vez e devolver a qualidade de vida ao seu cão, leia este artigo até o fim.
O que realmente é a Otite Canina? (Entendendo a Anatomia)
Para entender a doença, precisamos entender o órgão. O ouvido do cão não é igual ao nosso.
Enquanto o canal auditivo humano é horizontal e curto, o canal auditivo do cão tem o formato de um “L”. Ele desce na vertical e depois faz uma curva para a horizontal até chegar ao tímpano.

A Analogia da Caverna: Imagine uma caverna profunda, escura, úmida e com pouca ventilação. Esse é o ouvido do seu cão. É o ambiente perfeito para o crescimento de microrganismos.
A otite canina nada mais é do que a inflamação desse conduto. Ela causa um inchaço que fecha ainda mais essa “caverna”, prendendo calor e umidade lá dentro. Isso cria um ciclo vicioso: a inflamação favorece as bactérias, e as bactérias aumentam a inflamação.
É importante distinguir:
- Otite Canina Externa: Afeta o canal até o tímpano (a mais comum).
- Otite Canina Média e Interna: Quando a infecção rompe o tímpano e atinge estruturas neurológicas (muito mais grave).
Sinais Clínicos: O que o tutor vê vs. O que está acontecendo
Muitas vezes, o tutor só percebe a otite quando o cão grita de dor. Mas o corpo dá sinais muito antes disso.
1. O Prurido (Coceira Intensa) O cão coça a orelha com a pata ou esfrega a cabeça em móveis e tapetes.
- O que está acontecendo: As células de defesa liberam histamina e outras substâncias inflamatórias que irritam as terminações nervosas. É uma sensação desesperadora para o animal.
2. O Meneio Cefálico (Chacoalhar a cabeça) Parece que o cão está tentando “tirar água” do ouvido.
- O risco: De tanto bater as orelhas, o cão pode romper vasinhos sanguíneos na orelha, criando o otohematoma (aquela orelha inchada parecendo um pastel), que muitas vezes exige cirurgia.
3. O Odor e a Secreção (O “Cerúmen”) O cheiro forte e a presença de cera são clássicos. Mas a cor da cera nos dá pistas:
- Cera marrom escura/preta (parece borra de café): Comum em infecções por ácaros (sarna de ouvido) ou leveduras.
- Cera amarela/esverdeada e purulenta: Geralmente indica infecção bacteriana grave, muitas vezes por bactérias perigosas como a Pseudomonas.
4. Eritema (Vermelhidão) A parte interna da orelha fica quente e vermelha, indicando fluxo sanguíneo aumentado pela inflamação.
O Diagnóstico: A Visão do Patologista (O “Pulo do Gato”)
Aqui é onde a maioria dos tratamentos falha. Olhar o ouvido não é suficiente.
Como patologista, afirmo categoricamente: é impossível saber qual remédio usar apenas olhando a cor da cera. O “olhômetro” não funciona na medicina veterinária séria.
Para tratar corretamente, precisamos de dois passos fundamentais:
1. A Otoscopia
Para diagnosticar a otite canina, o veterinário usa o otoscópio (aquele aparelho com luz) para ver lá no fundo. Precisamos saber: O tímpano está íntegro? Se o tímpano estiver rompido e usarmos certos remédios em gotas, podemos causar surdez irreversível no animal.
2. A Citologia Otológica (O Exame Chave)
É aqui que a mágica acontece. Coletamos uma amostra da secreção do ouvido, colocamos em uma lâmina de vidro, coramos e levamos ao microscópio.
O que eu, como veterinário, procuro na lâmina? Precisamos identificar quem é o inimigo:
- Ácaros (Otodectes cynotis): É sarna? Se for, antibiótico não resolve. Precisa de acaricida.
- Fungos (Malassezia): São leveduras muito comuns que parecem “pegadas de sapato” ou “bonecos de neve” no microscópio. Precisam de antifúngico.
- Bactérias Cocos: Bactérias redondinhas (ex: Staphylococcus).
- Bactérias Bastonetes: Bactérias em forma de bastão. Estas são o terror dos veterinários, pois muitas vezes são resistentes e agressivas (ex: Pseudomonas).

Por que isso importa? Se o seu cão tem uma otite por fungos e você usa um remédio que só mata bactérias, você mata a competição biológica e o fungo cresce ainda mais. O remédio errado não só não cura, como piora o quadro.
O Erro Comum: A Resistência Bacteriana
Este é um tópico de saúde pública. Quando o tutor compra um remédio na loja agropecuária sem receita (“aquele que curou o cachorro do vizinho”), ele geralmente está usando um antibiótico em subdose ou o antibiótico errado.
Isso mata as bactérias fracas, mas deixa as fortes vivas. Essas bactérias fortes se reproduzem e criam uma superinfecção.
No laboratório, recebo frequentemente amostras de ouvidos com bactérias multirresistentes, onde quase nenhum remédio funciona mais. Nesses casos, precisamos fazer um exame chamado Cultura e Antibiograma, para testar qual antibiótico ainda consegue matar aquela bactéria específica.
Não transforme uma otite simples em um “monstro” resistente por automedicação.
Tratamento e Manejo: Muito além do “Remedinho”
O tratamento de sucesso se baseia em um tripé: Limpeza, Medicação Tópica e Tratamento da Causa Base.
1. A Limpeza (Pré-tratamento) Lembra da “caverna”? Se ela estiver cheia de cera e pus, o remédio em gotas não encosta na pele do ouvido. Ele fica boiando na sujeira.
- É fundamental usar uma solução ceruminolítica (que derrete a cera) indicada pelo vet antes de aplicar o remédio.
2. A Causa Base (A raiz do problema) A otite raramente aparece sozinha. Em 80% dos casos, ela é apenas o sintoma de outra doença. As causas primárias mais comuns são:
- Alergias (Dermatite Atópica ou Alergia Alimentar): A causa número 1 de otites recorrentes.
- Hipotireoidismo: Problemas hormonais que alteram a pele.
- Corpos estranhos: Sementes ou pelos que caem dentro do ouvido.
- Umidade: Banhos onde entra água e não seca direito.
- Tumores e Pólipos: Em animais idosos (mas também em jovens), o crescimento de massas dentro do ouvido é uma causa comum de dor e secreção. Nesses casos, a biópsia e o exame histopatológico são vitais para decidir se o tratamento é medicamentoso ou cirúrgico.
Se tratarmos a otite mas não controlarmos a alergia, a otite voltará no mês seguinte.
Conclusão
A otite canina não é frescura, é uma condição dolorosa que afeta diretamente o bem-estar do seu amigo. A diferença entre a cura e a recorrência eterna está no diagnóstico preciso.
Não gaste dinheiro com tentativas e erros. Se o seu pet apresenta sinais de desconforto auricular, o caminho mais barato e seguro a longo prazo é a consulta veterinária com exames adequados.
Como costumamos dizer na patologia: “Quem não procura o que busca, não diagnostica o que tem.”
Cuide da saúde auditiva e previna a otite canina no seu pet.. Um ouvido saudável é música para os ouvidos dele — e tranquilidade para os seus.
Nota do Veterinário: Este conteúdo é informativo e educacional. Ele não substitui a consulta presencial, o exame físico e os exames laboratoriais (citologia e histopatologia) realizados por um Médico Veterinário. Nunca medique seu animal por conta própria.

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