Introdução
Lidar com a alergia em cães é desafiador. Se você tem um pet em casa que não para de se coçar, você conhece o som do desespero: aquele barulho constante de unhas batendo na pele, o som de lambedura interminável nas patas durante a madrugada e o chacoalhar de orelhas.
Você provavelmente já trocou a ração para uma marca “Premium”. Já tirou o frango. Já comprou o shampoo hipoalergênico. E o cão continua se coçando.
A frustração é real. Mas a culpa não é sua.
Na dermatologia veterinária, duas vilãs são quase idênticas aos olhos do tutor, mas exigem estratégias de guerra completamente diferentes: a Hipersensibilidade Alimentar (Alergia à comida) e a Dermatite Atópica (Alergia ao ambiente).
Como veterinário patologista, vejo muitas biópsias e citologias de pele inflamada. Hoje, quero te ensinar a pensar como um detetive clínico para entender qual desses inimigos está atacando o seu pet — e por que não existe um “exame de sangue mágico” que resolva tudo.
O Grande Duelo: Alergia Alimentar vs. Dermatite Atópica
Para vencer o inimigo, precisamos conhecê-lo. Vamos definir quem é quem, fisiologicamente falando.
1. A Hipersensibilidade Alimentar (Alergia à Comida)
Essa forma de alergia em cães acontece quando o sistema imunológico encara uma proteína específica da dieta (frango, carne bovina, soja, leite) como uma ameaça letal.
- O Mecanismo: O corpo produz anticorpos contra aquele “pedaço” de comida. Toda vez que o cão come, o corpo dispara uma chuva de histamina na pele.
- O Mito: “Meu cão come a mesma ração há 5 anos, não pode ser ela”. A verdade: A alergia pode se desenvolver a qualquer momento, inclusive após anos comendo a mesma coisa.
2. A Dermatite Atópica (A causa mais comum de alergia em cães)
Esta é mais complexa. É uma doença genética onde a pele do cão tem uma “barreira defeituosa”. Imagine um muro de tijolos (a pele). Num cão normal, o cimento é forte. Num cão atópico, o cimento é fraco e cheio de buracos.
- O Invasor: Ácaros da poeira, pólen, fungos do ambiente e grama entram por esses “buracos” na pele e causam inflamação.
- A Frequência: É muito mais comum que a alergia alimentar. Estima-se que para cada 1 cão com alergia alimentar real, existam 10 com dermatite atópica.
Sinais Clínicos: Onde a Confusão Começa
O grande problema é que os sintomas da alergia em cães são praticamente iguais nas duas doenças. Em ambos os casos, você verá:
- Lambedura excessiva de patas (as patas ficam cor de ferrugem pela saliva).
- Vermelhidão na barriga, virilha e axilas.
- Otites recorrentes: Lembra do nosso artigo sobre Otite Canina? Muitas vezes, a dor de ouvido é o único sintoma de uma alergia alimentar ou atopia.

A Diferença Sutil (Pistas para o Detetive):
- Sazonalidade: Se o cão coça só na primavera ou no verão, suspeitamos de Atopia (pólen/grama). Se coça o ano todo igual, a chance de Alergia Alimentar aumenta.
- Gastrointestinal: Cães com alergia alimentar podem (mas nem sempre) ter gases, fezes moles ou vomitar esporadicamente. Cães atópicos raramente têm isso.
O Diagnóstico: Por que não existe “Exame de Sangue” para Ração?
Aqui entra a minha visão laboratorial. Muitos tutores chegam pedindo um exame de sangue para saber “o que o cão pode comer”.
Infelizmente, a ciência mostra que para diagnosticar a alergia em cães, esses testes sorológicos (IgE/IgG para alimentos) têm muitos falsos positivos e falsos negativos. O exame pode dizer que o cão tem alergia a arroz, mas ele come arroz e fica bem.
Então, como descobrimos a verdade? O diagnóstico é clínico e por exclusão. É uma maratona, não um sprint.
1. A Citologia Cutânea (O Primeiro Passo Obrigatório)
Antes de culpar a ração, precisamos limpar o terreno. Na alergia em cães, a pele costuma ficar quente e úmida, o paraíso para bactérias (Staphylococcus) e leveduras (Malassezia).
- A Visão do Patologista: Muitas vezes, o cão não coça tanto pela alergia em si, mas pela piodermite (infecção) secundária. Se eu fizer uma lâmina e vir milhões de bactérias, precisamos tratar essa infecção primeiro. Só quando a pele estiver “limpa” de bichos é que vamos ver o quanto da coceira é realmente alergia.
2. O Controle de Ectoparasitas
Parece básico, mas uma picada de pulga em um cão alérgico causa uma explosão inflamatória. É obrigatório uso rigoroso de antipulgas durante o diagnóstico.
3. A Dieta de Eliminação (O Padrão Ouro)
Se controlamos a infecção e as pulgas e a coceira continua, testamos a comida. Mas não é “mudar o sabor da ração”.
- A Dieta Hipoalergênica Real: Usamos ração com proteína hidrolisada (onde a proteína é quebrada em pedaços tão pequenos que o corpo não reconhece) ou uma dieta caseira de “proteína inédita” (ex: coelho ou rã, algo que ele nunca comeu), formulada por um nutricionista.
- A Duração: O teste deve durar de 8 a 12 semanas.
- O Erro Fatal: Dar um “pedacinho” de pão, um biscoito ou o resto do almoço durante a dieta. Um único petisco zera o teste e temos que começar os 3 meses tudo de novo.
Se após 3 meses de dieta rigorosa a coceira parar, fazemos a provação (damos a comida antiga). Se a coceira voltar, fechamos o diagnóstico: Alergia Alimentar. Se a coceira continuar mesmo com a ração especial, excluímos a comida. Sobra o diagnóstico final: Dermatite Atópica.
Tratamento para alergia em cães: Controle, não cura
Seja Atopia ou Alergia Alimentar, a má notícia é: não tem cura, tem controle.
A boa notícia é que o controle evoluiu muito. Antigamente, entupíamos os cães de corticoides (que destroem o fígado e rins a longo prazo). Hoje, a medicina veterinária oferece opções modernas.
Pilares do Tratamento Moderno:
- Hidratação da Barreira Cutânea: O uso de shampoos e mousses com fitofingosina e ceramidas ajuda a “cimentar” os tijolos da pele, impedindo a entrada de alérgenos.
- Imunomoduladores: Medicamentos modernos (como Oclacitinib ou anticorpos monoclonais) que “desligam” o sinal da coceira sem os efeitos colaterais pesados dos corticoides.
- Imunoterapia (Vacinas de Alergia): Para cães atópicos, podemos formular vacinas específicas com os ácaros que causam a alergia nele, “ensinando” o sistema imune a tolerá-los.
Conclusão
Ver o seu cão se coçar é angustiante, mas tentar adivinhar a causa trocando de ração aleatoriamente é jogar dinheiro fora e prolongar o sofrimento dele.
O caminho do diagnóstico da alergia em cães é longo — exige dieta restritiva, exames de citologia repetidos e paciência — mas é o único caminho para o alívio duradouro.
Se o seu pet vive com a pele vermelha, patas úmidas e ouvidos inflamados, não espere a pele engrossar e escurecer (cronificação). Procure um veterinário que investigue a fundo.
Nota do Veterinário: Este conteúdo é informativo. Alergias não se tratam sozinhas. A prescrição de dietas hipoalergênicas e medicamentos imunomoduladores deve ser feita exclusivamente pelo seu Médico Veterinário após exame clínico.
