O Pastor Alemão é, indiscutivelmente, uma das raças mais icônicas e amadas do mundo. Símbolo de lealdade, coragem e inteligência, ele serve como cão policial, guia e, acima de tudo, companheiro de família. No entanto, existe uma “maldição” ortopédica que persegue esta raça há décadas, partindo o coração de tutores e desafiando veterinários: a displasia coxofemoral.
Não é raro vermos um Pastor Alemão jovem, com toda a energia do mundo, começar a “rebolar” estranhamente ao andar ou hesitar antes de saltar para dentro do carro. O que parece ser apenas um jeito desajeitado pode ser o início de uma doença degenerativa dolorosa.
Neste artigo técnico, vamos mergulhar na anatomia e na patologia desta condição. Não vamos falar apenas de “dor no quadril”. Vamos explicar o ângulo de Norberg, a incongruência articular e por que a seleção genética para aquela “traseira rebaixada” (angulação excessiva) cobrou um preço alto na saúde da raça.
O que é a Displasia Coxofemoral? (Anatomia Patológica)
Para entender a doença, imagine a articulação do quadril (coxofemoral) como um sistema de “bola e soquete”.
- A cabeça do fêmur é a “bola”.
- O acetábulo (na bacia) é o “soquete” ou taça onde a bola deve encaixar perfeitamente.
Num cão saudável, o encaixe é justo e suave, permitindo rotação sem atrito. Na displasia coxofemoral, ocorre uma incongruência articular. Ou o acetábulo é muito raso (plano), ou a cabeça do fêmur é deformada, ou os ligamentos são frouxos (lassidão ligamentar).
A consequência patológica: Como a bola não encaixa bem, ela “samba” dentro do soquete a cada passo. Esse movimento anormal causa microtraumas constantes na cartilagem. Com o tempo, o corpo tenta estabilizar essa articulação frouxa criando osso novo ao redor (osteófitos), o que leva à Osteoartrose Degenerativa. O resultado final é dor crônica, inflamação e perda de mobilidade.
Por que o Pastor Alemão? A culpa é da genética?
A displasia coxofemoral é uma doença multifatorial, mas o componente genético é esmagador (herdabilidade de cerca de 40% a 50%).
Historicamente, as exposições de cães premiaram Pastores Alemães com uma angulação traseira extrema (a garupa muito baixa e as pernas muito dobradas). Biomecanicamente, essa estrutura coloca uma carga de estresse absurda sobre a articulação do quadril durante a locomoção. Embora criadores sérios hoje façam o controle radiográfico rigoroso dos pais (só cruzam cães com laudo “A” ou “B”), a genética é complexa e genes recessivos podem saltar gerações.
Além da genética, existem os fatores ambientais que podem “ligar” esse gene:
- Crescimento Rápido: Filhotes que crescem rápido demais (excesso de ração ou suplementos de cálcio desnecessários).
- Piso Liso: Criar um filhote de Pastor num piso de porcelanato ou madeira lisa é desastroso. O esforço para não escorregar força a articulação e piora a lassidão ligamentar.
- Obesidade: Cada quilo extra é um martírio para um quadril displásico.
Sintomas: O “Andar de Coelho”
A displasia coxofemoral pode manifestar-se em duas fases: na juventude (5 a 10 meses) ou na idade adulta/sênior.
Fique atento a estes sinais clássicos:
- Intolerância ao exercício: O cão brinca um pouco e senta-se logo.
- Dificuldade para levantar: Especialmente em dias frios ou pela manhã, o cão parece “travado” e demora a esticar as pernas traseiras.
- O “Bunny Hopping” (Pulo de Coelho): Ao correr, o cão junta as duas patas traseiras e pula como um coelho, em vez de alternar as pernas. Ele faz isso para transferir o peso para a coluna e poupar o quadril.
- Atrofia Muscular: Se você olhar o cão por cima, a parte da frente (ombros) é larga e musculosa, mas a traseira (coxas) é fina e seca. Ele transfere todo o peso para a frente para aliviar a dor atrás.
Diagnóstico Definitivo: O Raio-X
Não existe “olhometro” para displasia. O diagnóstico exige sedação profunda ou anestesia geral para realizar o Raio-X Coxofemoral.
O patologista ou radiologista vai medir o Ângulo de Norberg.
- Normal: Ângulo maior que 105°.
- Displásico: Ângulo menor que 105°, presença de osteófitos (bicos de papagaio na borda da articulação) e achatamento da cabeça do fêmur.
Existe também o método PennHIP, que pode ser feito em filhotes a partir de 16 semanas. Ele mede o índice de distração (o quanto a articulação é frouxa) e prevê a probabilidade de o cão desenvolver artrose no futuro. Para quem compra um filhote de Pastor Alemão, esse exame precoce vale ouro.
Tratamentos: Do Conservador ao Cirúrgico
Receber o diagnóstico de displasia coxofemoral não é uma sentença de morte, nem de imobilidade. A medicina veterinária evoluiu muito.
1. Manejo Conservador (Para casos leves ou cães idosos)
O objetivo é tirar a dor e fortalecer a musculatura.
- Controle de Peso Rigoroso: O cão deve ser magro. Costelas palpáveis, mas não visíveis.
- Fisioterapia e Hidroterapia: A esteira aquática é fantástica. Ela permite fortalecer a coxa sem impacto. Músculo forte segura a articulação no lugar.
- Condroprotetores e Colágeno Tipo II: Ajudam a lubrificar a articulação (embora não curem a artrose).
- Medicina Regenerativa: Injeções de células-tronco ou PRP (Plasma Rico em Plaquetas) dentro da articulação têm mostrado ótimos resultados para reduzir a inflamação.

2. Tratamento Cirúrgico (Quando operar?)
Se a dor não passa, a cirurgia é indicada. Existem opções para diferentes idades:
- Sinfisiodese Púbica Juvenil: Feita em filhotes muito jovens (até 16-20 semanas) para mudar a angulação da bacia. É preventiva.
- Osteotomia Dupla/Tripla da Pelve: Corta-se o osso da bacia para rodar o acetábulo e cobrir melhor a cabeça do fêmur.
- Colocefalectomia (Excisão da Cabeça do Fêmur): Remove-se a “bola” do fêmur. Forma-se uma pseudo-articulação fibrosa. Funciona bem em cães mais leves ou quando não há dinheiro para a prótese.
- Prótese Total de Quadril (PTQ): O padrão-ouro (e mais caro). Substitui-se tudo por titânio e polietileno. O cão volta a ter uma vida atlética normal, sem dor alguma.
Prevenção: A escolha do filhote
Se você sonha em ter um Pastor Alemão, a prevenção da displasia coxofemoral em Pastor Alemão começa antes de o cachorro nascer.
- Exija o Laudo dos Pais: Nunca compre um filhote sem ver o Raio-X oficial dos pais e avós com laudo “A” (livre) ou “B” (quase normal). Criadores de “fundo de quintal” que vendem barato não fazem esse controle.
- Cuidado com a Ração de Filhote: Em raças grandes, ração de filhote (Puppy) deve ser dada com cuidado. O excesso de energia e cálcio faz o osso crescer mais rápido que o músculo, desestabilizando a articulação. Use rações específicas para “Filhotes de Raças Grandes/Gigantes”.
Conclusão
A displasia coxofemoral em Pastor Alemão é um desafio, mas com diagnóstico precoce e manejo correto, o seu cão pode ter uma vida longa, feliz e sem dor. Não normalize o “andar rebolado”. Ao primeiro sinal de desconforto, procure um ortopedista veterinário. A mobilidade é a essência da vida de um cão.
⚠️ IMPORTANTE: AVISO MÉDICO VETERINÁRIO
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Não medique o seu animal por conta própria. A automedicação pode mascarar sintomas graves ou agravar o quadro clínico. Se o seu pet apresentar qualquer alteração de comportamento, vômito, diarreia ou outros sintomas, procure imediatamente atendimento veterinário. A rapidez no socorro é, muitas vezes, o que salva vidas.
