Introdução: O Erro de Interpretação que Custa Vidas
Gatos são mestres na arte de esconder a dor. Eles evoluíram para não demonstrar fraqueza na natureza. Por isso, quando um gato manifesta sinais de desconforto, a situação geralmente já é crítica, como no caso da obstrução urinária.
Uma cena dramática e infelizmente rotineira na clínica veterinária é o tutor chegar correndo com a seguinte queixa: “Doutor, meu gato está constipado. Ele vai na caixa de areia, faz força, grita, treme, mas as fezes não saem. Preciso de um laxante.”
Na grande maioria das vezes (especialmente se o gato for macho), esse tutor está enganado. O gato não está tentando defecar. Ele está tentando desesperadamente urinar e não consegue. A bexiga está cheia, dura como uma pedra e prestes a romper.
Isso não é apenas um desconforto passageiro. Na medicina felina, chamamos isso de Obstrução Uretral, uma consequência grave da Doença do Trato Urinário Inferior Felino (DTUIF). É uma das emergências mais críticas que existem na veterinária. Se não tratada imediatamente, ela leva ao óbito em menos de 48 horas.
Neste artigo, vou usar minha visão de Patologista Animal para te ensinar a diferenciar esses sinais, explicar o que acontece microscopicamente na urina do seu gato e por que “esperar amanhecer” não é uma opção.
Anatomia: Por que os Machos são as Vítimas Principais?
Para entender a doença, precisamos olhar para a anatomia. Embora fêmeas também tenham cistite (inflamação), elas raramente obstruem (entopem). Por que isso acontece quase sempre com os machos?
A resposta está na uretra (o canal que leva a urina da bexiga para fora do pênis).
- Nas Fêmeas: A uretra é curta e larga. Pequenos cristais ou muco passam por ela facilmente.
- Nos Machos: A uretra é longa e extremamente estreita, especialmente na ponta do pênis (região peniana).

Imagine um funil que se estreita muito no final. Qualquer pequeno grumo de células, cristais ou muco pode agir como uma “rolha” biológica, vedando completamente a saída. Quando isso acontece, a urina continua sendo produzida pelos rins, mas não tem para onde ir.
O Que é a DTUIF? (Não é só “Infecção”)
DTUIF não é uma doença única, mas um termo “guarda-chuva” que usamos para descrever qualquer problema que afete a bexiga e a uretra dos gatos.
Diferente dos cães, onde a maioria das cistites é causada por bactérias (infecção bacteriana), nos gatos a história é muito mais complexa e frustrante. Estatísticas mostram que em gatos jovens e de meia-idade (até 10 anos), menos de 2% dos casos são causados por bactérias.
Então, o que está causando o problema? Geralmente, é um destes três vilões:
1. Cistite Idiopática Felina (O Fator Estresse)
Representa a maioria dos casos (cerca de 60%). “Idiopática” significa que a causa exata é desconhecida, mas sabemos que está ligada ao sistema nervoso e ao estresse. O gato somatiza mudanças no ambiente (obra em casa, visita nova, caixa de areia suja, outro gato na vizinhança). O cérebro envia sinais para os nervos da bexiga, que liberam substâncias inflamatórias, causando dor e sangramento sem nenhuma bactéria presente.
2. Urólitos e Cristais (As Pedras)
É a formação de “areia” na bexiga. Esses cristais microscópicos se juntam e formam pedras (cálculos) que irritam a parede da bexiga como uma lixa, ou descem e entopem a uretra.

3. Plugs Uretrais (tampão uretral)
Uma mistura perigosa de muco (produzido pela inflamação), cristais e células mortas. Essa mistura forma uma pasta densa que bloqueia o pênis do gato.
Sinais Clínicos: O Alerta Vermelho
Como diferenciar um gato com “prisão de ventre” de um gato obstruído? Observe o comportamento detalhadamente.
- Estrangúria (O sinal confuso): O gato vai na caixa várias vezes, fica na posição de fazer xixi (agachado), faz força abdominal visível, treme a cauda, vocaliza (chora alto) e não sai nada ou saem apenas gotas. É aqui que o tutor confunde com fezes.
- Periúria: O gato começa a urinar fora da caixa (no tapete, na cama, no ralo, na roupa do dono). Ele não faz isso por “vingança”. Ele associa a caixa de areia à dor terrível que sente, e tenta buscar superfícies frias e macias para ver se alivia.
- Hematuria: Sangue na urina. Pode ser visível (urina vermelha ou rosa) ou microscópica.
- Lambedura Genital: O gato lambe compulsivamente a região do pênis para tentar desobstruir ou aliviar a ardência.
O Sinal de Colapso: Se o seu gato parou de tentar ir à caixa, está escondido, vomitando, não come e parece “desligado” (prostrado), a situação é gravíssima. O corpo dele está entrando em colapso metabólico.
A Fisiologia da Morte: Por que eles morrem tão rápido?
Como patologista, preciso explicar o que acontece no sangue do animal obstruído para que você entenda a urgência. Não é “só” a bexiga que pode estourar (embora isso possa acontecer). O perigo invisível é químico.
A urina serve para excretar toxinas do corpo, principalmente o Potássio. Quando o gato não urina, o potássio volta para o sangue (Hipercalemia).
O potássio alto é tóxico para o coração. Ele interfere na condução elétrica cardíaca, causando bradicardia (coração lento) e arritmias fatais. O gato morre por parada cardíaca causada pela intoxicação da própria urina. Além disso, os rins param de filtrar o sangue (Insuficiência Renal Aguda Pós-Renal), acumulando ureia e creatinina, o que causa náusea, vômito e danos cerebrais.
Por isso, não espere amanhecer. Cada hora conta.
O Diagnóstico: A Visão do Patologista
Chegando na clínica, o veterinário vai palpar a bexiga (que estará dura e grande) e confirmar a obstrução. Após estabilizar o animal, a investigação laboratorial começa.
O tratamento correto depende 100% de saber qual cristal está causando o problema. E só o microscópio diz isso.
A Importância da Urianálise (Exame de Urina)
No laboratório, analisamos o sedimento urinário. Existem quatro tipos principais de cristais que exigem condutas diferentes:
- Estruvita (Fosfato Amoníaco Magnesiano):
- Microscopia: Parecem “tampas de caixão” retangulares.
- Ambiente: Formam-se em urina Alcalina (pH alto).
- Tratamento: Podem ser dissolvidos com ração terapêutica que acidifica a urina.
- Oxalato de Cálcio:
- Microscopia: Parecem pequenos “envelopes de carta” quadrados ou halteres.
- Ambiente: Formam-se em urina Ácida (pH baixo).
- Tratamento: Não dissolvem com ração. Se formarem pedras grandes, a cirurgia é obrigatória.
- Cistina:
- Aparência: Placas hexagonais (seis lados) perfeitas, parecem favos de mel.
- A Causa: É um defeito genético metabólico nos rins (Cistinuria), onde o rim não consegue filtrar esse aminoácido. É mais comum em certas raças (como Siameses) e exige manejo dietético vitalício muito específico.
- Urato de Amônio:
- Aparência: Parecem “maçãs do amor” espinhosas ou esferas marrom-amareladas.
- O Alerta: Em gatos, esses cristais raramente aparecem sozinhos por dieta. Eles são um forte indício de doença no fígado ou de uma anomalia vascular congênita chamada Shunt Portossistêmico. Se eu encontro urato, não adianta só tratar a bexiga; precisamos investigar o fígado.
O Perigo da “Ração para Urina” Genérica: Se você der uma ração que acidifica a urina para um gato que tem cristais de Oxalato (que crescem no ácido), você vai piorar a doença dele drasticamente. Nunca mude a dieta sem o exame de urina prévio.
Tratamento: Desobstrução não é “passar um remédio”
Muitos tutores pedem um remédio para desentupir em casa. Isso não existe.
O tratamento da obstrução é um procedimento médico invasivo e delicado:
- Sedação/Anestesia: O gato está com muita dor e a uretra está espasmada. Precisamos relaxar o paciente.
- Cateterismo Uretral: O veterinário introduz uma sonda minúscula pelo pênis do gato, usando soro fisiológico para “empurrar” a rolha de cristais de volta para a bexiga, liberando o fluxo.
- Lavagem Vesical: “Lavamos” a bexiga com soro estéril para tirar o excesso de sangue e areia.
- Internação: O gato geralmente fica internado com a sonda por 24 a 48h para garantir que a uretra desinche e para corrigir a desidratação e o potássio alto no sangue.
Prevenção e Manejo: O Segredo está na Água
Gatos são animais de origem desértica. Eles bebem pouca água por instinto e produzem uma urina muito concentrada. Urina concentrada é o ambiente perfeito para a formação de cristais.
A prevenção se baseia em diluir a urina e reduzir o estresse.
1. A Regra do Sachê
Alimento úmido não é petisco, é prevenção. O sachê tem cerca de 80% de água. Um gato que come sachê diariamente ingere muito mais água do que um que só come ração seca. Isso mantém a urina diluída, “lavando” a bexiga constantemente.
2. Água Corrente e Fresca
Gatos preferem água em movimento e longe da comida/caixa de areia. Invista em fontes de água e espalhe potes de vidro ou cerâmica (evite plástico, que segura cheiro) pela casa.

3. Enriquecimento Ambiental
Para a Cistite Idiopática, o remédio é felicidade.
- Caixas de Areia: A regra de ouro é Número de Gatos + 1. Se tem 2 gatos, precisa de 3 caixas. Mantenha-as sempre limpas.
- Tocas e Altura: Gatos precisam de prateleiras e esconderijos para se sentirem seguros.
Perguntas Frequentes sobre Gato Obstruído
Posso dar chá de quebra-pedra para o meu gato? Não. Além de não desobstruir a uretra (que é um bloqueio físico), chás e plantas podem ser tóxicos para o fígado felino, que é muito sensível. Não perca tempo com receitas caseiras em uma emergência.
Castração causa problema urinário? Esse é um mito antigo. A castração em si não causa a doença. O que acontece é que gatos castrados tendem a ficar mais sedentários e obesos. A obesidade sim é um grande fator de risco, pois o gato gordo se exercita menos, vai menos à caixa e bebe menos água. Controle o peso do seu pet!
Meu gato desobstruiu, mas voltou a entupir 1 mês depois. O que fazer? A recorrência é comum se o manejo não mudar (dieta e água). Em casos onde a uretra do macho é muito estreita e entope sempre, existe uma cirurgia chamada Penectomia (popularmente conhecida como “mudança de sexo”), onde removemos a parte estreita do pênis, criando uma abertura larga como a da fêmea. É a última opção, mas salva vidas.
Conclusão
A linha entre um gato saudável e um gato em risco de morte pode ser cruzada em poucas horas quando falamos de obstrução urinária.
Como veterinário, meu conselho final é: conheça a rotina do seu gato. Se você sabe quantas vezes ele vai na caixa e o tamanho normal do xixi dele, você perceberá a mudança no primeiro sinal.
Ao notar esforço improdutivo, choro ou lambedura excessiva, não pense em “intestino”. Pense em “bexiga” e corra para o veterinário. O diagnóstico precoce e a análise correta dos cristais pelo patologista são as chaves para que seu gato viva muitos anos longe da dor.
Nota do Veterinário: Este conteúdo é estritamente informativo. A obstrução uretral é uma emergência médica com risco de morte iminente. Se seu gato apresenta dificuldade para urinar, procure atendimento veterinário imediatamente. Não tente manobras caseiras.
