Quando o verão chega e as temperaturas sobem, a nossa rotina muda. Tiramos o protetor solar da gaveta, evitamos a exposição direta nos horários de pico e protegemos as crianças com chapéus. No entanto, frequentemente esquecemos um membro da família que, silenciosamente, sofre os mesmos riscos — ou até maiores — que nós: o nosso animal de estimação, que pode ficar vulnerável ao câncer de pele.
Existe um mito perigoso de que a pelagem é uma armadura impenetrável contra os raios ultravioleta (UV). Embora o pelo ofereça alguma proteção, ele não cobre tudo. Áreas despigmentadas (brancas), com pouco pelo (hipotricose) ou sem pelo nenhum (glabras) estão expostas diretamente à radiação solar.
Para cães e gatos de pelagem clara, o banho de sol na janela ou no quintal pode custar muito caro. Como médico veterinário patologista, analiso frequentemente biópsias de orelhas e focinhos que precisaram ser removidos devido ao Carcinoma de células escamosas, um câncer de pele agressivo e destrutivo causado pelo sol.

Neste artigo, vamos entender como o sol afeta a pele dos pets, como identificar os sinais precoces de perigo e, o mais importante, como prevenir esta doença devastadora.
A pele, o sol e a falta de melanina
Para entender o câncer de pele, precisamos primeiro entender a defesa natural do corpo: a melanina. Este pigmento é o que dá cor à pele e ao pelo, mas a sua função principal é absorver e dispersar a radiação UV, protegendo o DNA das células.
Animais com pele escura têm uma proteção natural maior. Já os animais de pele branca ou rosada (despigmentados) são, essencialmente, “transparentes” para a radiação solar. Quando o sol atinge estas áreas desprotegidas, ocorre um dano direto nas células da epiderme.
O problema não acontece da noite para o dia. O dano solar é cumulativo. Cada hora que o seu gato passa a dormir ao sol na janela, ou que o seu cão fica deitado de barriga para cima no pátio, soma-se a uma “conta” que o corpo cobrará no futuro. É por isso que muitos animais desenvolvem lesões graves apenas na idade adulta ou idosa, embora a exposição tenha começado quando eram filhotes.
O vilão: carcinoma de células escamosas (CCE)
Na rotina da patologia veterinária, o diagnóstico mais temido em lesões solares é o Carcinoma de Células Escamosas (CCE). Trata-se de um tumor maligno que se origina nos queratinócitos, as células que formam a camada mais externa da pele.
Diferente de outros tumores que formam “bolas” ou nódulos bem definidos, o CCE é traiçoeiro. Ele costuma ser ulcerativo e invasivo. Isto significa que ele “come” o tecido saudável ao redor. Em gatos, é comum vermos este tumor destruir literalmente a ponta da orelha ou o plano nasal (focinho), corroendo a pele e a cartilagem até deixar uma ferida aberta e deformante.

Embora o CCE tenha um potencial de metástase (espalhar-se para outros órgãos) relativamente tardio, o seu poder de destruição local é imenso. Muitas vezes, quando o tutor decide procurar ajuda, a única solução cirúrgica para salvar o animal é a remoção total ou parcial do pavilhão auricular (pinectomia) ou do nariz.
Quem está em risco?
Qualquer animal pode desenvolver câncer de pele, mas existem grupos de altíssimo risco que exigem vigilância redobrada dos tutores.
Gatos (especialmente brancos ou bicolores)
Os felinos adoram calor. Mesmo gatos que vivem em apartamento correm risco, pois o vidro da janela não filtra 100% dos raios UV prejudiciais. As áreas mais afetadas são:
- Pontas das orelhas (pinas);
- Nariz (plano nasal);
- Pálpebras e a região entre os olhos e as orelhas (onde o pelo é mais ralo).
Cães
Cães que gostam de tomar sol (“lagartear”) também são vítimas frequentes. As raças com pelagem branca curta ou pele despigmentada são as mais suscetíveis, como:
- Pitbulls e Staffordshire Bull Terriers brancos;
- Bull Terriers;
- Boxers brancos;
- Dálmatas. Neles, as lesões aparecem frequentemente no abdômen (barriga) e na parte interna das coxas, áreas que ficam expostas quando o cão se deita de costas, além do focinho e tronco.
A progressão da doença: da vermelhidão ao câncer
Como patologista, enfatizo sempre: o câncer não aparece de repente. Ele segue uma “escada” de evolução. Se o tutor estiver atento, pode interromper o processo nos degraus iniciais.
1. Dermatite solar (queimadura)
A fase inicial é visível a olho nu. A pele branca da orelha ou do focinho fica avermelhada (eritema), quente e pode descamar. O animal pode coçar um pouco. Se retirar o animal do sol nesta fase, a pele ainda pode recuperar.
2. Queratose actínica (lesão pré-neoplásica)
Com a insistência na exposição solar, a pele começa a mudar de textura. Torna-se mais grossa, rígida e aparecem pequenas crostas ou “casquinhas” secas que se soltam e voltam a aparecer. Este é o sinal de alerta vermelho. Muitos tutores acham que o gato se arranhou ou brigou. Eles passam uma pomada cicatrizante, a ferida melhora um pouco, mas nunca desaparece totalmente. Na verdade, as células já estão a sofrer mutações no DNA, preparando-se para se tornarem malignas.
3. Carcinoma “in situ” e invasivo
A lesão aprofunda-se. A ferida começa a sangrar com facilidade, forma úlceras (buracos) que não fecham e as bordas ficam elevadas e endurecidas. Neste ponto, o câncer já está instalado. A dor é constante e o risco de infecções secundárias por bactérias é alto.
O diagnóstico: por que o “achismo” é perigoso
Olhar para uma ferida e dizer “é câncer” ou “é só um arranhão” é impossível sem exames complementares. Muitas doenças fúngicas (como a esporotricose) ou autoimunes (como o pênfigo) podem imitar perfeitamente uma lesão solar.
É aqui que entra o trabalho do médico veterinário e do laboratório de patologia. Existem duas ferramentas principais:
- Citologia: Um exame rápido, onde coletamos células da superfície da lesão ou fazemos uma punção com agulha fina. Como patologista, procuro no microscópio células com características de malignidade (núcleos deformados, divisões celulares atípicas). A citologia é excelente para uma triagem inicial e para diferenciar de infecções.
- Histopatológico (Biópsia): É o padrão-ouro. Retira-se um pedaço da lesão (com o animal sedado ou anestesiado) para análise. Este exame diz não apenas “o que é”, mas também o “quão profundo está” e se as margens cirúrgicas estão livres de doença. É o exame definitivo para confirmar o Carcinoma de Células Escamosas.
Não espere a ferida ficar feia para investigar. Uma biópsia precoce numa lesão pequena é um procedimento simples; uma cirurgia reconstrutiva numa lesão grande é complexa e traumática.
Prevenção e manejo: o sol não precisa ser inimigo
Não precisa de proibir o seu animal de ver a luz do dia, mas o manejo deve ser inteligente. A prevenção baseia-se em três pilares:
1. Protetor solar veterinário
Jamais use protetor solar humano no seu animal sem orientação. Muitos protetores humanos contêm óxido de zinco, salicilatos ou PABA, substâncias que podem ser tóxicas se ingeridas (e cães e gatos vão lamber a área). Existem protetores solares específicos para uso veterinário, com gosto amargo para desestimular a lambedura e pH adequado. Devem ser aplicados nas pontas das orelhas, focinho e barriga, 15 a 30 minutos antes da exposição, e reaplicados ao longo do dia.
2. Controle de horários e barreiras físicas
A regra é a mesma dos humanos: evite a exposição direta entre as 10h e as 16h.
- Para cães que ficam no pátio, garanta sombra de qualidade.
- Para cães muito brancos, existem roupas com proteção UV que cobrem o tronco e abdômen.
- Para gatos de apartamento, aplicar películas de proteção UV nos vidros das janelas é uma medida extremamente eficaz e que protege também os móveis e os humanos da casa.
3. Vigilância constante
Crie o hábito de examinar as orelhas e o focinho do seu pet semanalmente. Se notar qualquer vermelhidão persistente ou uma casquinha que não cicatriza em 7 dias, procure o seu veterinário.
Conclusão
O câncer de pele é uma realidade triste e frequente na clínica veterinária, especialmente em países tropicais como o Brasil. A boa notícia é que ele é altamente prevenível.
Entender que aquele gato branco ou aquele cão de barriga rosada tem necessidades especiais é o primeiro passo. A proteção solar não é “frescura” ou humanização excessiva; é uma medida de saúde básica que previne dor, cirurgias mutilantes e morte precoce.
Se tem um animal de pele clara em casa, olhe para ele hoje com novos olhos. Aquela soneca inocente ao sol pode estar a esconder um perigo invisível. Proteja quem você ama.
Nota: Este artigo tem caráter informativo. Se o seu animal apresenta feridas que não cicatrizam, agende uma consulta veterinária. Apenas o exame profissional pode diagnosticar corretamente.
