Guia de vacinação em cães (2026): o protocolo correto

A chegada de um filhote em casa é um momento de alegria, mas também de dúvidas. Entre a compra da caminha e da ração, surge a carteirinha de vacinação, muitas vezes cheia de siglas e datas confusas. V8, V10, V12, Bronchi, Giárdia… afinal, o que é obrigatório e o que é opcional?

vacinação em cães

Como médico veterinário patologista, vejo diariamente a consequência trágica da não-vacinação ou da vacinação incorreta. Realizar a necropsia de um filhote que morreu de Cinomose ou Parvovirose é uma das tarefas mais tristes da profissão, principalmente porque são mortes preveníveis.

Neste guia técnico completo sobre vacinação em cães, vamos além do básico. Vou explicar a imunologia por trás das doses repetidas (não, não é para “vender mais vacina”), a diferença crucial entre vacinas importadas e nacionais, e detalhar contra o que, exatamente, estamos a proteger o seu melhor amigo.

A “Janela de Suscetibilidade”: Por que tantas doses?

A pergunta mais comum no consultório é: “Doutor, por que ele precisa de 3 ou 4 doses da mesma vacina quando é bebê?”

A resposta está na imunologia materna. Quando o filhote mama o colostro (o primeiro leite) nas primeiras horas de vida, ele recebe anticorpos prontos da mãe. Esses anticorpos protegem o filhote, mas também bloqueiam o efeito da vacina. Se vacinarmos um filhote com 30 dias, os anticorpos da mãe vão “matar” a vacina antes que o sistema imune do próprio filhote aprenda a defender-se.

  • O Dilema: Os anticorpos maternos caem gradualmente entre 6 e 16 semanas de vida. Não sabemos o dia exato em que eles somem.
  • A Solução: Vacinamos repetidamente (com intervalos de 21 a 30 dias) para garantir que, em pelo menos uma dessas doses, o sistema imune esteja livre para responder e criar memória.

Portanto, completar o protocolo de vacinação em cães filhotes não é capricho; é a única forma científica de garantir a “soroconversão” (imunidade real).

As Vacinas Essenciais

Estas são obrigatórias para qualquer cão, independentemente de viver num apartamento ou numa fazenda. Elas protegem contra doenças letais.

1. A Polivalente (V8, V10, V12)

É a “vacina múltipla”. Ela protege contra os vírus mais perigosos.

  • Cinomose: Um vírus que ataca o sistema respiratório, gastrointestinal e, finalmente, o sistema nervoso. Causa convulsões, paralisia e morte. Na patologia, vemos inclusões virais no cérebro e pulmões destruídos.
  • Parvovirose: Causa destruição das vilosidades intestinais (necrose), levando a diarreia com sangue profusa e desidratação fatal. O vírus é extremamente resistente no ambiente (sobrevive meses no chão).
  • Adenovírus (Hepatite Infecciosa): Destrói o fígado agudamente.
  • Parainfluenza: Um dos agentes da tosse.
  • Leptospirose: Uma bactéria zoonótica (passa para humanos através da urina do cão).

Qual a diferença entre V8 e V10? A diferença está apenas na quantidade de sorovares (tipos) de Leptospira.

  • V8: Protege contra 2 tipos (L. canicola e L. icterohaemorrhagiae).
  • V10: Adiciona mais 2 tipos (L. grippotyphosa e L. pomona).
  • O Veredito do Patologista: A V10 é geralmente a escolha padrão no Brasil, pois a Leptospirose é endêmica. Já a V12 (e superiores) é, na maioria das vezes, uma estratégia de marketing sem respaldo imunológico superior comprovado, muitas vezes adicionando cepas de bactéria que nem existem na nossa região, sobrecarregando o sistema imune desnecessariamente.

2. Vacina Antirrábica (Raiva)

A Raiva é uma zoonose 100% letal para cães e humanos. A vacinação é obrigatória por lei no Brasil.

  • Protocolo: Dose única a partir de 4 meses de idade, com reforço anual obrigatório por toda a vida.

As Vacinas Opcionais

Estas dependem do estilo de vida do cão e da região onde vive. O protocolo de vacinação em cães deve ser personalizado.

1. Gripe Canina (Tosse dos Canis)

Protege contra a bactéria Bordetella bronchiseptica e o vírus da Parainfluenza.

  • Indicada para: Cães que convivem com outros cães, frequentam creches, parques, banho e tosa ou hotéis.
  • Vias de aplicação: Existe injetável, oral ou intranasal (esta última gera imunidade local na mucosa do nariz mais rápida).

2. Giárdia

A vacina contra Giárdia é controversa na imunologia. Ela não impede 100% a infecção, mas reduz a gravidade dos sintomas e a excreção de cistos no ambiente.

  • Indicada para: Cães que vivem em ambientes muito contaminados ou com histórico recorrente da doença. Discuta a real necessidade com o seu veterinário.

3. Leishmaniose Visceral Canina

No Brasil, esta vacina é vital em áreas endêmicas. A Leishmaniose é uma zoonose grave transmitida pelo “mosquito palha”.

  • Protocolo Rigoroso: Só pode ser aplicada após o cão testar negativo para a doença. São 3 doses iniciais com intervalo estrito de 21 dias. O atraso de um único dia pode invalidar o protocolo.
  • Importante: A vacina não substitui o uso de coleiras repelentes. A proteção deve ser “dupla barreira” (vacina + repelente).

Vacina Importada vs. Nacional: Existe diferença?

Este é um ponto polêmico, mas tecnicamente claro. As vacinas chamadas “éticas” (produzidas por grandes laboratórios internacionais) possuem:

  1. Cadeia de Frio Garantida: São vendidas apenas para clínicas veterinárias, garantindo que nunca saíram da temperatura de 2°C a 8°C.
  2. Tecnologia de Adjuvantes: Usam adjuvantes (substâncias que estimulam a imunidade) mais modernos, que causam menos dor e reações alérgicas.
  3. Título de Anticorpos: Têm maior concentração viral garantida, gerando uma resposta imune mais robusta.

Vacinas nacionais vendidas em balcão de agropecuária correm o risco de terem sido desligadas da geladeira à noite, aplicadas por leigos ou manuseadas incorretamente. Na patologia, a maioria dos cães que morrem de cinomose “mesmo vacinados” receberam vacinas de balcão sem procedência. O barato sai muito caro.

Reações Vacinais: O que é normal?

Como qualquer medicamento biológico, vacinas podem causar reações.

  • Comuns (Benignas): Dor no local, um pequeno nódulo (granuloma) que some em semanas, febre leve ou sonolência por 24 horas.
  • Graves (Anafilaxia): Inchaço súbito do rosto (“cara de hipopótamo”), vômitos imediatos, dificuldade respiratória. Isso acontece geralmente 15 a 30 minutos após a aplicação. É uma emergência veterinária, mas felizmente é rara.

Protocolo Sugerido (Padrão Ouro 2026)

Embora varie caso a caso, um esquema vacinal moderno segue esta linha:

  • 45 dias: 1ª dose da Polivalente (V8 ou V10).
  • 66 dias: 2ª dose da Polivalente + Gripe.
  • 87 dias: 3ª dose da Polivalente + Gripe (reforço) + Giárdia (se indicada).
  • 108 dias: 4ª dose da Polivalente (opcional, mas recomendada para Rottweilers e Dobermans) + Giárdia (reforço) + Raiva.
  • Anualmente: Reforço de todas as vacinas.

Nota: Protocolos modernos permitem fazer o reforço da V10 a cada 3 anos em cães adultos, mantendo apenas a Leptospirose e Raiva anuais, mas isso depende de titulação de anticorpos (VacciCheck).

Conclusão

A vacinação em cães é o maior ato de amor e responsabilidade que você pode ter. Ela criou uma barreira invisível que impede que vírus mortais entrem na sua casa. Não negligencie o reforço anual. Lembre-se: vírus como o da Cinomose não foram erradicados; eles estão na rua, à espera de uma falha na imunidade para atacar. Mantenha a carteirinha em dia e confie apenas no Médico Veterinário para realizar este procedimento.


⚠️ IMPORTANTE: AVISO MÉDICO VETERINÁRIO

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Não medique o seu animal por conta própria. A automedicação pode mascarar sintomas graves ou agravar o quadro clínico. Se o seu pet apresentar qualquer alteração de comportamento, vômito, diarreia ou outros sintomas, procure imediatamente atendimento veterinário. A rapidez no socorro é, muitas vezes, o que salva vidas.

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